
Nelson Pereira dos Santos
Na edição desse ano do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo tive o privilégio de assistir uma aula-magna de Nelson Pereira dos Santos.
O cineasta mestre, considerado pai do cinema novo, fez uma intervenção muito lúcida a respeito da sua obra e do cinema que se pratica hoje no país. Ao relatar as formas de obtenção de financiamento da maioria dos seus filmes, pude constatar (apesar de algumas críticas plausíveis) a importância da EMBRAFILME no financiamento e distribuição dos filmes brasileiros. Nelson relatou aquilo que já está escrito na história, mas que não é do conhecimento de muitos, principalmente dos que fazem cinema hoje em dia no Brasil. Em seu período mais fecundo, a EMBRAFILME possibilitou que o cinema brasileiro tivesse uma ocupação de 30% do mercado, atingindo altas bilheterias e financiando uma diversidade grande de filmes.
Quando Nelson relata as dificuldades de obtenção de recursos quando filmou seus primeiros filmes, percebemos que mesmo com todos os problemas decorrentes da má administração da EMBRAFILME (em certos períodos) e da não implementação do projeto original (que previa não só a distribuição, mas também a exibição e o controle da importação de filmes), o cinema brasileiro teve um salto de produção, de público e de distribuição antes nunca conseguido.
Esse debate merece ser retomado para repensarmos o atual modelo de produção de filmes. Alguns arautos dos “direitos do público” esbravejam que gasta-se muito com o cinema brasileiro e que não existe público que justifique esse gasto. Como se o problema fosse unicamente dos filmes que foram produzidos, como se um filme pudesse por si só levar multidões às salas de cinema.
Os arautos dos “direitos do público” fogem do debate e se escondem por trás de um discurso fácil para defenderem aqueles que são a principal causa do cinema brasileiro não obter bons resultados de bilheterias: o mercado exibidor predominantemente de empresas estrangeiras e a distribuição de filmes dominada por empresas estrangeiras.
Paulo Emílio Salles Gomes matou a questão a pau, décadas atrás. A pergunta que devemos fazer é: até quando alguns cineastas vão justificar no público a má qualidade de seus filmes e seu desejo de enriquecimento a base do financiamento público?
Sobre Nelson, ainda falta dizer que foi muito enriquecedor poder assistir os relatos desse grande cineasta a quem devemos importantes obras do cinema latino-americano. Fiquei curioso para entender por que durante as perguntas do público, apareceram muitos estudantes de história e poucos estudantes de cinema. Nelson já faz parte da história, não só do cinema, mas da história do nosso país. Agora a falta de estudantes de cinema na aula-magna me preocupa (pelo menos durante as perguntas), não só por ser Nelson um exemplo a ser seguido, mas também por certo desinteresse que possa existir em relação ao cinema novo e seus cineastas. O reflexo disso pode ser visto nas telas.


