Soy Cuba, foi através desse filme (assistido ano passado, graças ao Making Off) que conheci o trabalho da dupla Mikhail Kalatozov (direção) e Sergei Urusevsky (fotografia). O filme feito na ilha é um capítulo a parte e será objeto de uma análise num momento posterior.
O motivo desse post é falar sobre “Quando voam as cegonhas”, filme da dupla Kalatozov/Urusevsky, realizado em 1957 e ganhador da palma de ouro em 1958.
Mais um filme que tem como cenário a segunda grande guerra, mostrando as dificuldades daquele período sobre a ótica socialista. Para resumir, dois jovens amantes são separados pela guerra, diante da falta de comunicação (o noivo foi para o front), a noiva se casa com o primo do soldado. Apesar disso, ela nunca perde a esperança no retorno de seu amado.
Até aí, tudo bem, nada muito diferente do que estamos acostumados a ver na televisão. Algumas diferenças fundamentais transformam essa estória (que poderia figurar em qualquer folhetim) em uma obra de intensa expressão e profundidade.
Separei dois trechos que encontrei na internet que ilustram algumas das cenas que impressionam, pela inovação para a época, pelo rigor da composição e pelo impressionante ritmo que, de certa maneira, alterna com o ritmo geral do filme. São momentos de “explosão”, em que o conflito interno dos personagens ganha expressão plástica.
O primeiro momento é quando Boris (o noivo que foi para o front) é alvejado, enquanto salvava outro soldado que fazia, junto com ele, o reconhecimento do terreno.
Um delírio, uma visão do sonho que almejava realizar quando voltasse da guerra.
A segunda cena acontece quando o sentimento de culpa de Veronika, por ter casado com o primo de Boris (e não ter esperado a volta do noivo), se consome em desespero. Veronika perdeu a família num bombardeio, quando passa a morar com a família de Boris (este já está na guerra), cede às insistentes investidas do primo de Boris.
Esse sentimento de culpa permeia todo o filme, Veronika nunca perde as esperanças do retorno de Boris, e quando ouve um sermão sobre as mulheres que não esperam seus noivos voltarem da guerra, explode em desespero.
A cena é magnífica, a aceleração dos planos em que Veronika corre chega a um estágio em que só vemos riscos frenéticos pularem de um lado a outro na tela. Como se a personagem, consumida pelo seu desespero, de repente se jogasse embaixo do trem que passa ao seu lado.
A inventividade da dupla Kalatozov/Urusevsky impressiona pela composição dos planos. A fotografia de Urusevsky (que é um elemento de forte destaque em Soy Cuba) é composta de fortes contrastes entre os tons de branco e preto, até mesmo nos closes dos personagens (como o close de Veronika que aparece nessa sequência).
O rigor na escolha dos enquadramentos, a câmera na mão (influência que será de grande valia para os cubanos) e os diversos plano-sequência impressionam pelo efeito que geram sobre a trama. Escolhas certas.
Kalatozov e Urusevsky não obtiveram o mesmo sucesso em Soy Cuba, mas isso será objeto de outra análise.


