Refrão, de Krzysztof Kieślowski.
Krzysztof Kieślowski é um diretor com trajetória peculiar. Seus primeiros curtas já continham o olhar que o mestre registrou na sua famosa trilogia das cores. Kieślowski fez diversos documentários, e só mais tarde retornou à ficção. O interessante dessa trajetória é que podemos perceber a sua marca nos documentários, assim como nos filmes de ficção. Ele nunca construiu seus documentários com um olhar objetivo, como se fossem o olho da verdade. Pelo contrário, apesar de sua câmera “silenciosa”, Kieślowski parece defender uma posição muito forte em cada filme, quase como uma tese. Arrisco-me a dizer que sua forma de construir filmes se aproxima dos chamados filmes-ensaio (sem a apropriação material típica desses filmes).
É o caso de “Refrão” (Refren, no original). Muitos tendem a minimizar seus filmes a aspectos do regime socialista da Polônia. Mais que um crítico da burocracia, Kieślowski aponta uma discussão maior. O curta começa com um close de um documento de identidade, a foto colada a ele está sendo arrancada. O cemitério e em seguida a repartição responsável pela administração dos cemitérios daquele bairro ou distrito. Num ambiente escuro, vemos funcionários atendendo pessoas que tiverem parentes falecidos. Só vemos os funcionários na penumbra. Kieślowski alterna essas imagens, como se não quisesse cortá-las, num movimento repetido em frente a uma janela em que vemos a rua e toda a movimentação da cidade. Vida e morte, temas que sempre permeiam a obra do diretor polonês.
A montagem do filme é construída de forma cíclica. Kieślowski alterna a repartição funerária com a vida da cidade. O tempo cíclico tem relação com a diferença e a repetição. Como uma música que possui intervalos diferentes entre um refrão e outro. Diferença e repetição. Vida e morte. O interessante é a inversão praticada por Kieślowski. Na segunda seqüência do filme temos o cemitério, um mar de lápides invade a tela. Kieślowski relaciona essa imagem com a seqüência final, onde vemos alinhados vários berços com bebês. Na parte frontal dos berços seus respectivos números, lápides, crianças que já nascem com um número e que terão desaparecido oficialmente quando seus documentos de identidade forem destruídos.


