Um Homem com uma Câmera, de Dziga Vertov.
É comum a associação do nome Dziga Vertov a um gênero específico (se é que podemos aceitar essa classificação) do cinema: o documentário. Essa associação demonstra um equívoco fácil de desmascarar. Quando fazia filmes, Dziga Vertov não estava preocupado em registrar a realidade no formato que conhecemos como documentário. Sua proposta era outra, basta ver o que está escrito em Nós – Variações do Manifesto:
Nós nos denominamos KINOKS para nos diferenciar dos “cineastas”, esse bando de ambulantes andrajosos que impingem com vantagem as suas velharias.
Não há, a nosso ver, nenhuma relação entre a hipocrisia e a concupiscência dos mercadores e o verdadeiro “kinokismo”.
O cine-drama psicológico russo-alemão, agravado pelas visões e recordações da infância, afigura-se aos nossos olhos como uma inépcia.
Aos filmes de aventura americanos, esses filmes cheios de dinamismo espetacular, com mise en scène à Pinkerton, o kinok diz obrigado pela velocidade das imagens, pelos primeiros planos. Isso é bom, mas desordenado e de modo algum fundamentado sobre o estudo preciso do movimento. Um degrau acima, do drama psicológico, falta-lhe, apesar de tudo, fundamento. É banal. É a cópia da cópia.
NÓS declaramos que os velhos filmes romanceados e teatrais têm lepra.
— Afastem-se deles!
— Não os olhem!
— Perigo de morte!
— Contagiosos!
NÓS afirmamos que o futuro da arte cinematográfica é a negação do seu presente.
A morte da “cinematografia” é indispensável para que a arte cinematográfica possa viver.
NÓS os concitamos a acelerar sua morte.
NÓS protestamos contra a miscigenação das artes a que muitos chamam de síntese. A mistura de cores ruins, ainda que escolhidas entre todos os tons do espectro, jamais dará o branco, mas sim o turvo.
Chegaremos à síntese na proporção em que o ponto mais alto de cada arte for alcançado. Nunca antes.
NÓS depuramos o cinema dos kinoks dos intrusos: música, literatura e teatro. Nós buscamos nosso ritmo próprio, sem roubá-lo de quem quer que seja, apenas encontrando-o, reconhecendo-o nos movimentos das coisas.
NÓS os conclamamos:
— a fugir —
dos langorosos apelos das cantilenas românticas
do veneno do romance psicológico
do abraço do teatro do amante
e a virar as costas à música
— a fugir —
ganhemos o vasto campo, o espaço em quatro dimensões (3 + o tempo), à procura de um material, de um metro, de um ritmo inteiramente nosso.”
Esse trecho deixa explícito que a proposta de Dziga Vertov não era criar um novo gênero ou desenvolver a linguagem do documentário. Pelo contrário, é um franco ataque aos gêneros cinematográficos em voga. O que eles chamam de arte cinematográfica é a independência do cinema em relação às outras artes.
Nos primórdios do cinema, não demorou muito para que alguém resolvesse contar histórias usando imagens. Há teóricos que defendem que as imagens contêm uma narrativa, independente da vontade daquele que as encadeou, mesmo que você não queira narrar nada, as imagens por si só criarão uma narrativa para o espectador. O que Dziga Vertov queria era liberar o cinema da submissão à literatura. Principalmente após o surgimento do cinema sonoro, o cinema baseado na literatura alcançará hegemonia. O filme falado é o triunfo da narrativa calçada na literatura sobre o cinema mudo. O cinema mudo possuía (devido à necessidade de expressar apenas através da imagem sentimentos, sensações, etc.) uma ligação com a imagem pura – livre de interferências – muito maior do que o cinema sonoro.
É por isso que considero errada a afirmação e classificação de Dziga Vertov como documentarista, apesar de sua prática estar ligado à prática do documentário. O documentário, como conhecemos, é mais um gênero dessa cinematografia de que os Kinoks falam.

Grupo Dziga Vertov
No final da década de 60, Jean-Luc Godard e Jean Pierre Gorin criam o Grupo Dziga Vertov (em homenagem ao mestre soviético). A experiência desse grupo irá levar às últimas conseqüências as postulações dos Kinoks.
Vento do Leste (1969) é o filme manifesto do grupo. Desvincular o cinema de toda narrativa romanceada, da influência da música (nos casos em que se sobrepõe à imagem) e se propor como instrumento da luta de classes são algumas das defesas do Grupo. O distanciamento crítico, importância da montagem no processo criativo e principalmente a quebra da identificação (processo fundamental do cinema ilusionista) estão presentes em Vento do Leste.
O filme trata dos movimentos operários de maio de 68, mas sem tratá-los de maneira convencional (o que seria importante para um documentário, como por exemplo, entrevistar pessoas, reconstituir cenas, etc). A discussão da luta de classes livre da representação burguesa, do cinema narrativo hollywoodiano (apesar do filme ter relação com o gênero western). E de quebra a famosa cena da encruzilhada, que tem Glauber Rocha indicando os caminhos do cinema político.



