
Berlim Alexanderplatz, de Rainer Werner Fassbinder.
Fassbinder considerava Alexanderplatz seu projeto de vida. É composto por 13 episódios e um epílogo de 2 horas. Foi feito para a televisão alemã em 1980, com o tempo de produção de um ano. É uma adaptação do romance de Alfred Döblin (com o mesmo nome) e trata do período entre guerras. Franz Biberkopf é o protagonista que acaba de sair da cadeia e se depara com o mundo que agora já é estranho para ele. Fassbinder irá retratar a Berlim da época, suas noites escuras, a recessão, os bares, o nazismo, os comunistas e toda a agitação sombria que se passava na Alemanha. Como se quisesse redimir a culpa dos alemães pela Segunda Guerra Mundial e seus crimes bárbaros, Fassbinder mostra como uma situação fragilizante possibilitou a ascensão do nazismo e como a população alemã pode ter apoiado o regime em nome da prosperidade, da ordem, da lei e do trabalho que tanto faltavam à Alemanha naquele período. Obrigada pelo Tratado de Versalhes a pagar os custos da Primeira Grande Guerra, a Alemanha mergulhou numa crise sem precedentes em sua história. Alta inflação, desemprego em massa, fome.
Esse cenário é representado em Berlim Alexanderplatz através da luta de Franz Biberkopf para sobreviver após sair da cadeia. Suas angústias e seu desejo de uma vida tranqüila refletem o sentimento da população da época perante a crise instalada. Franz começa a trabalhar vendendo o jornal do partido nazista usando exatamente esse discurso. Ele não tem ódio dos judeus ou de qualquer outro grupo étnico, apenas quer paz, trabalho e ordem. Franz, nesse capítulo, representa uma parcela da população alemã que apoiou o nazismo na esperança de dias melhores e que talvez possa ter se arrependido muito tarde da escolha que fez.
Fassbinder compõe um cenário e iluminação intimistas. Seu trabalho com sombras e recortes fez com que milhares de alemães desregulassem seus aparelhos de televisão mexendo no contraste. A idéia de Fassbinder era criar um ambiente sem profundidade de campo, apenas os personagens em movimentos pelas sombras, seus rostos próximos. O romance de Döblin é constituído de montagens de textos. Como num processo de colagem, Alfred Döblin reflete o ambiente da grande cidade, com seus ruídos, cartazes, jornais, transeuntes, bondes, trens, ambulantes, etc. Tudo isso é “colado” em meio à narrativa, a sensação que temos é mergulhar na imensidão de acontecimentos de uma cidade grande. Fassbinder adapta isso de maneira diferente, ele não usará tantos espaços abertos em Alexanderplatz. Pelo contrário, ele filma em espaços internos, e o barulho da cidade, suas luzes e seus ruídos invadem os ambientes, assim como a trilha sonora. Fassbinder mergulhou nas sombras os personagens e trouxe a ambientação da cidade grande para dentro de seus cenários. Mesmo quando filma em lugares públicos (a estação de metrô, por exemplo), Fassbinder cria um ambiente pouco iluminado onde os personagens se confundem com o cenário e os sons e ruídos interferem a todo o momento.
A Berlim mostrada por Ruttman (em Berlim: Sinfonia de uma Metrópole) está de certa forma representada por Fassbinder. Apesar da opção de cenários fechados (talvez até pelo custo de um filme – série – que precisa de reconstituição de época), o drama vivido pelos personagens e a realização de um processo de colagem similar ao feito no romance de Döblin garantem um mergulho na atmosfera da época e a representação sombria e angustiante do período entre – guerras.


