Satori Uso, de Rodrigo Grota (em duas partes).
A fronteira entre ficção e documentário no cinema já é tema bem abordado em diversos filmes ao longo da história. No Brasil, recentemente, dois documentários se propuseram a discutir essa questão, “Santiago” e “Jogo de Cena“. Sem falar em “Iracema: uma Transa Amazônica” (feito em plena ditadura militar), que rompe essa fronteira e deixa pensadores e críticos conturbados até os dias atuais.
Eis que surge Satori Uso no Festival Internacional de Curtas de São Paulo, no ano passado. Caí numa sessão especial sem querer, não estava na programação, assisti 4 curtas, o último era Satori. Quando as luzes se acenderam estava em choque, peguei a programação do festival, procurei Satori na lista dos filmes estrangeiros e não achei. Não prestei atenção aos créditos, tal o impacto que as imagens deste curta me causaram. Alguém me disse “é brasileiro”. Eu não tinha pensando nessa hipótese. Verdadeira obra de arte, Satori invoca o silêncio, o esquecimento. Um poeta nascido morto, um cineasta que nunca acaba seus filmes, fragmentos perdidos que reconstituem a vida do poeta que desapareceu nas sombras.
O silêncio. Não existe artifício mais poderoso do que ele. De repente o silêncio, o vazio, a escuridão. Satori se esconde nas sombras, se esconde da luz. Vemos seu reflexo numa bacia d’água, dissolvido, inconstante. A fotografia perfeita, os contrastes e os enquadramentos constroem uma verdadeira pintura em movimento. Uma pintura de sombras, que remete às origens do cinema.
É aí que o curta de Rodrigo Grota ganha maestria. Sua reflexão não dura apenas os 17 minutos de projeção. Satori nunca existiu, o cineasta Jim Kleist também não. E muitos, inclusive eu, não perceberam que se trata de um falso documentário. Uma ficção que coloca em cheque o índice de realidade no cinema. As referências de Grota são de peso, diretores consagrados. Como ele mesmo citou, Kielowski foi deixar de fazer documentários para fazer ficções depois de muito tempo, quando se tocou que a realidade no cinema sempre é encenada, seja documentário ou ficção. A realidade no cinema sempre será uma construção, orquestrada pelo diretor, nunca um duplo da realidade.
Satori é exemplo para qualquer estudante de cinema, exemplo de produção (feito em Londrina, fora do circuito Rio – São Paulo), rodado em digital com qualidade excepcional. E inovador, instigante, uma verdadeira obra de arte. Muitos curtas de universidades de peso, como a FAAP, mal chegam perto do que Rodrigo Grota fez. Acostumados a materializar sensações efêmeras, temas superficiais, os estudantes de cinema, salvo algumas exceções, caminham na contramão da inovação. Preferem fazer filmes que além da pobreza estética e conceitual revelam uma formação incipiente e superficial dos diretores.
Felizmente Satori existe, ou talvez não.



Realmente muito bom! Vale lembrar da continuação, que espero ansioso para ver. O cara que escreveu os Haikais sob o pseudônimo de Satori Uso, o poeta Rodrigo Garcia Lopez, escreve na revista Coyote de Londrina e por coincidência eu conheço um dos editores dessa revista. Heheh, o mundo é pequeno!