Entr’acte, de Rene Cláir.
Queria fazar uma relação entre Entr’acte e A Sociedade do Espetáculo de Guy Debord, mas é bem complicado. Os dadaístas realizavam na época uma anti-arte, a negação dos padrões de arte impostos por ecolas, galerias, museus, etc. Duchamp teve diversas de suas obras recusadas por museus, salões e galerias. A ruptura dadá foi incorporada mais tarde, pois assim gira a roda na história da arte. Mas e Guy Debord? Ele foi radical no sentido de negar tudo e fazer um filme com uma tela em branco, uma narração off e em seguida o escuro. Ou seja, não há mais saída. Se para os dadaístas a negação era produzir uma anti-arte, revelar que os padrões estabelecidos sobre o que é arte e o que não é foram definidos por alguém, Debord (que na minha concepção olhou para trás e percebeu como as vanguardas foram absorvidas e passaram a fazer parte daquilo que combatiam), rompe de uma maneira que não há mais volta. Mas essa análise ainda vai demorar para se concretizar, acho que é mais ou menos esse o caminho.
O filme que coloquei acima é Entr’acte, de Rene Cláir. Foi produzido para passar entre o primeiro e segundo atos de um balé dadaísta feito por Francis Picabia. Aliás, o roteiro do filme é de Francis Picabia, e teve a participação da maioria dos dadaístas famosos, Duchamp, Man Ray, o próprio Picabia como a bailarina barbuda…É interessante notar como foram inventivos numa época em que a edição tinha que ser feita na base do corta e cola. O filme possui um ritmo alucinado, acompanhado pela música de Erick Satie. É uma junção de gags, filmes de Georges Méliès (Viagem à lua) e filmes de perseguição, já famosos na época. Uma obra-prima non-sense. E fico pensando: como as pessoas reclamam pra fazer as coisas hoje em dia! Se naquela época em que tudo era mais difícil foram feitos filmes como esse, Um Cão Andaluz, A Idade do Ouro, etc. Imagine as possibilidades de hoje.





Antigamente por ser muito mais difícil de realizar esse tipo de montagem se pensava mais no que era feito, acho que hoje exatamente por existir essa facilidade de realizar a montagem é que existe tanta porcaria e raros filmes nonsense interessantes.