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Prévia do TCC

O capítulo abaixo é parte integrante do TCC que estou desenvolvendo sobre a experimentação da linguagem cinematográfica no curta-metragem brasileiro. A pesquisa está quase finalizada.

O trecho que reproduzo abaixo trata da influência do cinema estrageiro na cinematografia nacional e discute o Cinema Novo como vanguarda artística que rompeu com a dependência criativa do cinema brasileiro frente à cinematografia de outros países (principalmente hollywood).

3.3 – A influência de Hollywood no cinema brasileiro.

Pobre do país subdesenvolvido que não tiver uma arte forte e loucamente

nacional  porque, sem sua arte, ele está mais fraco (para ser colonizado

na cuca) e essa é a extensão mais perigosa da colonização econômica.

Glauber Rocha[1]

Para entender o significado do movimento do Cinema Novo na produção cinematográfica brasileira é necessário fazer um rápido retorno a alguns pontos que permeiam a história do cinema em nosso país. Em seu célebre artigo “Cinema Brasileiro – trajetória no subdesenvolvimento”, Paulo Emílio Salles Gomes (GOMES, 1986)  aponta que o cinema brasileiro, desde seus primórdios, foi marcado por ciclos de produção e de crise. O cinema chegou logo ao nosso país, mas o desenvolvimento da exibição e da produção de filmes foi dificultado pela deficiência em energia elétrica da capital federal, no final do século XIX. Só alguns anos mais tarde (1907) foi possível a existência de salas de exibição. Isso não impediu que as primeiras imagens registradas com um cinematógrafo fossem feitas em 1898. Voltando de uma viagem à Paris, Afonso Segreto (imigrante italiano) filmou a Baía de Guanabara e marcou o início do nosso cinema (GOMES, 1986, p.40). Apenas três anos após a famosa projeção dos irmãos Lumière no Grand Café de Paris. Daí por diante iniciou-se a saga que dura até os dias de hoje e que se confunde com a história do país. A luta da produção nacional contra a produção estrangeira. Paulo Emílio relata que “entre 1908 e 1911, o Rio conheceu a idade do ouro do cinema brasileiro” (GOMES, 1986, p.31). Essa idade do ouro foi possível graças à confluência entre setores da produção e da exibição cinematográfica. Os empresários donos das salas de cinema eram também produtores e importadores de filmes, o que garantia uma relação harmoniosa e frutífera entre produção e cadeia de exibição. Os filmes eram variados, podiam ser melodramas, filmes que reconstituíam crimes famosos da época, musicais, etc. Mas não tardou muito para que o cinema estrangeiro (que começava a se consolidar como indústria) ocupasse as salas de exibição em lugar dos filmes brasileiros. É importante lembrar que, nessa época, o Brasil era um país essencialmente exportador de matérias-primas. Os produtos industrializados eram importados, “em troca do café, que exportava, o Brasil importava até palito e era normal que importasse também o entretenimento  fabricado nos grandes centros da Europa e da América do Norte” (GOMES, 1986, p.31). Resultado: o incipiente e jovem cinema brasileiro foi sufocado.

“À medida [...] que o comércio cinematográfico internacional vai se estruturando e se fortalecendo, a ocupação do mercado interno [brasileiro] torna-se cada vez mais violenta e diminuem as possibilidades da produção brasileira” (BERNADET, 1991, p.12).

A produção estrangeira ocupou as salas de exibição e aqueles que se dedicavam a fazer cinema no Brasil tiveram que procurar outra ocupação ou se dedicar aos filmes de atualidade ou “naturais”. Esses filmes de atualidade (cinejornais) eram documentários encomendados por pessoas, empresas, governo e discorriam sobre os mais diferentes assuntos, sempre do ponto de vista de quem encomendava o filme. Já os “naturais, como eram chamados  podiam ser sobre as belezas naturais de regiões longínquas, a fauna, a flora, cachoeiras, etc. (BERNADET, 1991, p. 24). Durante muitos anos, a produção de curtas-metragens basicamente se limitou a esse tipo de filmes. A ocupação das salas de exibição por parte do cinema estrangeiro foi, por um lado, estratégica (pelos centros exportadores) e, por outro lado, catastrófica para o desenvolvimento do nosso cinema. “Não é possível entender qualquer coisa que seja ao cinema brasileiro, se não se tiver sempre em mente a presença maciça e agressiva, no mercado interno, do filme estrangeiro [...]” (BERNADET, 1991, p. 11). Jean-Claude Bernadet ainda relata que a presença dos filmes estrangeiros no Brasil era variada até cerca de 1918. Existiam, no Brasil, filmes franceses, alemães, suecos, dinamarqueses e americanos. “Após a guerra, com o enfraquecimento das cinematografias européias, é a vez dos Estados Unidos que se instalam e até hoje continuam instalados” (BERNADET, 1991, p.12). Vale ressaltar que, apesar do texto de Bernadet datar de 1979, a situação atual das salas de cinema no nosso país não se alterou. Basta abrir o jornal, ou consultar as salas de cinema na internet para verificar a maciça ocupação do cinema norte-americano. Essa ocupação não gerou apenas dificuldades para o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica no Brasil. Mas também condicionou o público a um produto importado que nada tem a ver com a sua realidade.  Como bem definiu Jean-Claude Bernadet: “Esta presença não só limitou as possibilidades de afirmação de uma cinematografia nacional, como condicionou em grande parte suas formas de afirmação” (BERNADET, 1991, p. 11). É corrente a justificativa, ao longo da história, de que o cinema brasileiro é “ruim”, ora por não ter bons técnicos, ora por não ter bons equipamentos, ora por não ser igual ao cinema estrangeiro. Milhares de explicações sobre a “atuação dos atores”, ou o “mal emprego da técnica por parte do diretor”, ou ainda a “deficiência do tema” povoam as críticas das mais diferentes personalidades ao cinema brasileiro. Muitas vindas de críticos, que acostumados como estavam ao cinema estrangeiro, não observavam com olhar clínico a situação agonizante em que se encontrava (em verdade, sempre se encontrou) a produção nacional, esmagada pela concorrência estrangeira (BERNADET, 1991, p. 29-33).

No Rio de Janeiro se esboçou um ciclo de produção mais ou menos duradouro, a partir do surgimento da Cinédia e da Atlântida; duas companhias que produziram o que ficou conhecido como “chanchada”. Comédias musicais, muitas com temas carnavalescos, em que figuravam personalidades famosas do rádio, como Oscarito, Grande Otelo, Derci Gonçalves e outros; dominaram boa parte das produções a partir de meados de 1947 (GOMES, 1986, p. 65). Muitos consideravam esses filmes como grotescos ou populares. Os filmes da chanchada, de fato, conseguiram bons resultados de bilheteria, principalmente no Rio de Janeiro, onde a associação de Luis Severiano Ribeiro (dono de grande cadeia de exibição) à Atlântida garantiu a existência do gênero por longo período (GOMES, 1986, p. 65).  Existe a tentativa de opor cinema americano à chanchada, como se um fosse destinado às classes dominantes e o outro às classes populares. Paulo Emílio resvala (sem se aprofundar, é verdade) nessa questão.

“A identificação provocada pelo cinema americano modelava formas superficiais de comportamento em moças e rapazes vinculados aos ocupantes [classes dominantes]; em contrapartida a adoção, pela plebe, do malandro, do pilantra, do desocupado da chanchada, sugeria uma polêmica do ocupado contra ocupante” (GOMES, 1986, p. 80).

Essa oposição se revelou falsa, como bem atesta Jean-Claude Bernadet: “Contrariamente ao que se pensa freqüentemente e apesar a chanchada fazer apelo a uma tradição brasileira de espetáculo (comédia teatral dos anos 30, o circo, o rádio), esta chanchada tem também fortes matizes americanas” (BERNADET, 1991, p.80).  Quando não imita a estética norte-americana, a chanchada faz paródia. E a paródia, por mais que esculache ou degrade a obra original (no caso da chanchada) reforça um modelo ideal de cinema. Já que a paródia é o filme “ruim”, a reprodução cômica, então existe um modelo superior a ser parodiado. É importante não confundir a função da paródia em outro contexto, os filmes de paródia da chanchada constituem um caso específico em que fica mais clara a submissão do nosso cinema aos modelos estrangeiros. É fato que a chanchada se caracterizou por um período ininterrupto de produção que durou cerca de 20 anos, contrariando os interesses estrangeiros (GOMES, 1986, p. 80).

Impulsionados pela produção carioca (de chanchada) e preocupados em realizar “cinema de qualidade”, em oposição às “grotescas” chanchadas, se estabeleceu em terras paulistas a tentativa de criação de uma indústria cinematográfica. A Vera Cruz surge reproduzindo os moldes dos grandes estúdios cinematográficos. Construiu imensas instalações em São Bernardo do Campo, trouxe técnicos estrangeiros, importou equipamento e contratou estrelas. A incompreensão do processo cinematográfico brasileiro levou esse empreendimento ao fracasso. Influenciados pelas críticas e teorias da “qualidade” da nossa produção cinematográfica, os produtores paulistas importaram tudo, na tentativa de alcançar um “padrão de qualidade” para as platéias. As chanchadas não possuíam tal padrão de qualidade visto nos filmes estrangeiros, seu sucesso está vinculado aos gêneros populares já citados por Jean-Claude Bernadet; apesar de sofrerem também a influência do filme estrangeiro (BERNADET, 1991, p. 77). Essa tentativa de “elevar” o padrão dos filmes está vinculada à colonização cultural das classes dominantes, que antes de perceberem estar dominadas pelo produto estrangeiro, creditam o fracasso das produções brasileiras aos produtores.

“A busca do universalismo e do padrão internacional tinha antes como função envernizar a burguesia periférica [nacional] que produzia estes filmes: torná-los mais dignos a imagem que esta burguesia fazia de si, tentando equiparar-se às burguesias dominantes [estrangeiras]” (BERNADET, 1991, p. 77).

O erro não poderia ser mais catastrófico. Não bastava importar técnicos, equipamentos, formas de produção e copiar o cinema estrangeiro, a distribuição dos filmes foi confiada às distribuidoras estrangeiras que dominavam o mercador no país. “Os empresários paulistas que se lançaram à aventura vinham de outras atividades e nutriam a ilusão ingênua de que as salas de cinema existem para passar qualquer fita, inclusive as nacionais” (GOMES, 1986, p. 80). Foram esmagados pelo poderoso cartel norte-americano da indústria cinematográfica. Mesmo assim não deixaram de copiar o filme americano. A isso Jean-Claude Bernadet chama de mimetismo. “O mimetismo consistiria mais ou menos no seguinte: já que o público está vinculado ao espetáculo estrangeiro, produzir filmes brasileiros que satisfaçam o gosto e as expectativas criadas pelo cinema estrangeiro” (BERNADET, 1991, p.70). Mas é claro que o mimetismo sempre se deu disfarçado. Nos exemplos citados no livro de Bernadet, a maior parte dos comentários sobre a produção nacional justifica a deficiência dos filmes brasileiros na falta de um tal “padrão internacional” ou “linguagem universal”. De acordo com essas críticas, faltava aos nossos filmes esse “selo de qualidade”. Sobre essa dissimulação, Bernadet aponta que: “[...] quando se diz internacional ou universal, não se quer dizer que os filmes devam ter a linguagem de filmes egípcios ou indianos, mas sim europeus ou norte americanos” (BERNADET, 1991, p. 77). Essa postura indica um pensamento que vê a linguagem cinematográfica como neutra, as fórmulas de “sucesso” como indicativo de qualidade. Entender os recursos da linguagem cinematográfica como simples ferramentas que podem ser transpostas revela uma condição de submissão cultural frente aos filmes estrangeiros. Delineia-se então a dinâmica que dominou boa parte da história do cinema brasileiro, submissão econômica ao cinema estrangeiro e submissão cultural. De maneira que o cinema estrangeiro era considerado de “qualidade” e cabia aos cineastas brasileiros copiar as fórmulas destes filmes. A importação dessas fórmulas não se faz sem prejuízo, como se fosse possível adaptar o western americano para as terras brasileiras, onde não existiu a conquista do oeste, nem apaches atacando diligências. É interessante o relato que faz Bernadet, dizendo que a maior parte dos filmes sobre o cangaço tem muito mais relação com os filmes de faroeste americanos do que com o banditismo no sertão do nordeste (BERNADET, 1991, p. 79). “O que acaba então sendo imitado, não são os elementos básicos da estrutura dramática, mas sim elementos de ambientação, gestos, happy end, perseguições, etc” (BERNADET, 1991, p. 79-80). Glauber Rocha também explica o fenômeno. Sobre o filme de Lima Barreto, produzido pela Vera Cruz ele afirma:

“O Cangaceiro, de Lima Barreto,  cria uma intriga de western americano no seio do cangaço [...] usa apenas os símbolos para servir à intriga western: chapéus grandes, paisagem agressiva, armas e cavalos (quando se sabem, por exemplo, que cangaceiros andavam raramente a cavalo), música e danças folclóricas” (ROCHA, 2004, p. 128).

O resultado dessa operação é, salvo raras exceções, uma mediocridade artística nas produções cinematográficas até meados dos anos 1950. Quando efetivamente surge uma geração de cineastas que, comprometida com a realidade do país, rompe com a colonização cultural e coloca o cinema brasileiro ao lado dos cinemas nacionais que emergiam, ao mesmo tempo, em outros países. Era o movimento do Cinema Novo. A maior parte dos cineastas cinemanovistas era jovem, na casa dos vinte e poucos anos. O Cinema Novo não se caracteriza como uma escola estética, mas sim como um movimento artístico. Os diretores, apesar de possuírem afinidades, fizeram filmes que diferem entre si. Basta comparar à grosso modo, Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha. Filmes contemporâneos que tratam da mesma temática de maneiras bem diferentes. Mas os filmes do Cinema Novo possuem pontos em comum, o principal é o tratamento da realidade. Os diretores do movimento resolveram encarar a tarefa de retratar a realidade brasileira sem fabricações, sem importar fórmulas de cinemas estrangeiros, com a clara intenção de refletir sobre a complexidade do nosso país. Uma tarefa árdua, que encontrou obstáculos dos mais diversos. Jean-Claude Bernadet[2] dá o exemplo da diferença que um jovem diretor italiano (à época) tinha de referências e história cinematográfica nacional para se utilizar e a cinematografia que dispunha um jovem diretor brasileiro. De modo que, por causa dos constantes ciclos de produção e de crise, das poucas produções de destaque e da insistência pela cópia do filme estrangeiro, “a realidade brasileira não tem [em 1967] existência cinematográfica” (BERNADET, 1967, p. 13). Jean-Claude revela que, aos jovens cineastas do Cinema Novo faltavam referências a uma cinematografia, eles tiveram que começar do zero[3]. Nesse sentido é compreensível a militância de Glauber Rocha, o principal líder do Cinema Novo, em defender as teses cinemanovistas e pregar um cinema liberto da colonização cultural, tanto hollywoodiana quanto européia. A consciência de um cineasta do Cinema Novo está mais relacionada com o conhecimento da dependência a que está submetido o cinema brasileiro e, extensivamente, a cultura do país. Nas palavras do próprio Glauber Rocha:

“[...] conhecemos como ninguém a estrutura do cinema americano, de sua técnica artística à sua distribuição. E, mais do que o frio técnico, vivendo na dependência desta estrutura, a sentimos mais profundamente. Sabemos do sistema de atores, das chaves das estórias, dos atrativos dos gêneros, da trucagem publicitária, tudíssimo.” (ROCHA, 2004, p. 148).

Mas esse conhecimento não representa a reprodução do modelo, pelo contrário. Glauber afirma que o cineasta não pode aceitar a submissão e, dessa maneira, contribuir para o subdesenvolvimento cultural do país. Repetir as fórmulas estrangeiras, justificando no público a sua cópia, não resolveu o problema da inexistência de uma indústria cinematográfica no país. Basta relembrar o fracasso da Vera Cruz. “Não importa conhecer as técnicas de comunicação e nelas se infiltrar O que importa é denunciar estas técnicas e procurar alternativas” (ROCHA, 2004, p. 148). Estes jovens cineastas balançaram o quadro cultural brasileiro em fins dos anos 1950 e por toda a década de 1960. A disputa pelo cinema passa a se dar através do campo econômico, a consciência do cineasta se amplia e ele passa, então, a enxergar o subdesenvolvimento econômico em suas raízes mais profundas. “[...] é uma luta igual às outras da indústria brasileira e mais do que nunca, agora, este amadurecimento político de um povo necessita de legenda: o cinema é nosso, como no caso do petróleo” (ROCHA, 2003, p.175). Não é em vão que Glauber toma emprestado o slogan do “Petróleo é Nosso”. O Cinema Novo tentou se consolidar como indústria independente, constituindo até uma distribuidora de filmes, a DIFILM. A idéia é deixar claro que a disputa se dá no campo econômico e que é necessário permitir que os filmes brasileiros ocupem as salas de exibição do país.  O projeto cinemanovista foi abortado pela golpe militar, em 1964. Progressivamente o Cinema Novo vai perdendo forças, apesar de seus autores continuarem a produzir filmes. A militância política gerou frutos e o governo militar cria em 1969 a EMBRAFILME, empresa pública que ficou a cargo da produção de filmes (inicialmente) e da distribuição de filmes nacionais. A EMBRAFILME era uma antiga reivindicação dos cineastas. Jean-Claude Bernadet analisa a ingerência do Estado nos assuntos culturais, em especial no cinema, após a criação da EMBRAFILME e sua relação com a produção cinematográfica[4]. Jean-Claude defende que o governo militar utilizou, por meio de manobras perspicazes, a EMBRAFILME para dirigir politicamente a produção. Seria necessário um estudo mais aprofundado da questão para abordá-la (que não é o objetivo deste trabalho). Mas é importante pontuá-la para podemos prosseguir.

Para o curta-metragem, o surgimento do Cinema Novo significou um salto qualitativo. Dos cinejornais e dos naturais, o curta-metragem passou a objeto de atenção dos cineastas do Cinema Novo. Primeiro como um exercício de formação, depois como expressão maior. Grande parte dos cineastas cinemanovistas fizeram curtas-metragens, Carlos Diegues, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade (fez 3, só no “primeiro período”), Glauber Rocha (além de Pátio, fez Cruz na Praça, filme não terminado), Miguel Borges, Marcos Farias, Paulo César Saraceni, entre outros. Sem contar os curtas feitos após os primeiros longas-metragens. Alguns diretores, como Joaquim Pedro, conjugaram curtas e longas durante sua carreira. Vale citar que o Cinema Novo abrangeu muito mais cineastas, Glauber inclui na lista desde Nelson Pereira dos Santos (considerado mentor do Cinema Novo) até Walter Hugo Khouri, cineasta revelado na Vera Cruz e remanescente após o fracasso dos estúdios paulistas. A importância do Cinema Novo está diretamente relacionada com o despertar de uma produção artística única até então e que se pretendia ser original, sem influências externas. O ápice da tese cinemanovista encontra-se no manifesto escrito por Glauber Rocha “Eztetyka da Fome”.

“O que fez do cinema novo um fenômeno de importância internacional foi justamente seu alto nível de compromisso com a verdade; foi seu próprio miserabilismo, que, antes escrito pela literatura de 30, foi agora fotografado pelo cinema de 60; e, se antes era escrito como denúncia social, hoje passou a ser discutido como problema político.” (ROCHA, 2004, p. 65)

É importante notar que Glauber advoga uma transformação. Com o Cinema Novo, os filmes deixaram de forjar uma visão humanitária dos problemas sociais; deixaram de desempenhar a função de denúncia social e passaram a refletir sobre a realidade. Não interessa apresentar uma imagem triste e “caridosa” em relação à miséria, como que para expor o problema às autoridades e às platéias internacionais. Para o cineasta baiano,  interessa discutir a dimensão política do cinema, num sentido de transformação social e não de constatação da miséria. “Um estilo que procura redefinir a relação do cineasta brasileiro com a carência de recursos, invertendo posições diante das exigências materiais e as convenções da linguagem próprias ao modelo industrial dominante” (XAVIER, 2007, p. 13).  Por isso, a fome é utilizada por ele como argumento e como arma. Produzir filmes com imagens rebuscadas, fotografia de estúdio, cenários idealistas, histórias maniqueístas, melodramas, etc. seria falsificar a realidade e não refletir sobre suas contradições. Os filmes do Cinema Novo absorvem as deficiências decorrentes do subdesenvolvimento da indústria cinematográfica e as transportam para os universos retratados. A fotografia de Deus e o Diabo na Terra do Sol muito difere da fotografia de O Cangaceiro. É como se no filme de Glauber a aspereza e a força cegante da luz do sertão estivesse o tempo inteiro presente, proporcionando a dimensão da vivência dos habitantes daquele lugar inóspito. Por isso ao invés de travellings e de movimentos de câmera meticulosamente engendrados, a preferência é pela câmera na mão; pelo corte seco na montagem, pela descontinuidade narrativa, o faux raccord. O Cinema Novo operou de formas variadas a recusa da decupagem clássica, do naturalismo do cinema norte-americano. Realizou a denúncia sistemática do convencionalismo da indústria e inseriu o cinema brasileiro no contexto das vanguardas cinematográficas mundiais.

Se você me perguntar, portanto, o que caracterizava teoricamente o “Cinema Novo”, eu diria isso: a necessidade de criar uma cultura revolucionária em um país subdesenvolvido, isso, do ponto de vista cultural; do ponto de vista cinematográfico, a necessidade de internacionalizar o problema através do meio artístico internacional, por excelência, do século XX, que é o cinema[5].

Eis porque o Cinema Novo é o ponto de partida para seleção dos filmes deste trabalho. A emergência de um movimento artístico que rompeu com os moldes de representação sedimentados culturalmente ao longo dos anos pelos filmes norte-americanos. A variedade de filmes do Cinema Novo e seu modo de retratar a realidade compõem um leque em que é possível identificar experiências ousadas que romperam definitivamente com a analogia da representação. De maneira diversas, uns mais outros menos, a analogia com a realidade foi retrabalhada de modo a apresentar uma obra que refletisse politicamente a sociedade em que estava inserida, não como denúncia social, nem como paternalismo artístico. Mas como potência de transformação e de afirmação artística. Não cabe aqui relacionar a hipótese descrita no capítulo anterior sobre a dupla hélice e os graus de analogia da representação com os longas-metragens do Cinema Novo. O intuito é firmar como marco esse movimento para que a partir dele possamos analisar as experiências do curta-metragem e seus efeitos de desanalogização da imagem cinematográfica. O Cinema Novo abriu as portas, deixemos os filmes entrar.


[1] ROCHA, 2006, p. 319.

 

[2] O livro de Jean-Claude Bernadet “Brasil em Tempo de Cinema” data de 1967. Ele foi escrito no “calor” dos acontecimentos.  Muitas de suas posições foram retomadas em um livro posterior “Cinema Brasileiro: propostas para uma história”, datado de 1977 e muito citado em todo este capítulo. A citação de Bernadet logo a seguir se relaciona ao período pré Cinema Novo.

[3] Em seu livro, “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro”, Glauber Rocha fará um apanhado da cinematografia brasileira com o intuito de encontrar raízes para o cinema brasileiro, a partir de uma perspectiva autoral. Por isso, Humberto Mauro é considerado por ele e por outros cinemanovistas como o primeiro autor do cinema brasileiro.

[4] Ver o capítulo “Novo ator: o Estado”, em “Cinema Brasileiro: propostas para uma história”.

[5] Glauber Rocha em entrevista concedida para João Lopes inclusa em PIERRE, Sylvie, 1996, p. 200.

Bibliografia

BERNADET, Jean-Claude – Brasil em tempo de cinema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

_____________________ – Cinema Brasileiro: propostas para uma história. 2ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1991.

GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. São Paulo: Paz e Terra, 1986.

ROCHA, Glauber – Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

_______________ – Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

XAVIER, Ismail – Sertão Mar: Glauber Rocha e a estética da fome. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

Esse ano novamente vou escrever críticas dos filmes que passam no festival. A oficina Crítica Curta acontece todos os anos e é constituída por estudantes de cinema e comunicação que tenham interesse por desenvolver a reflexão cinematográfica.

Os textos dos filmes poderão ser lidos no blog do projeto:  http://blog.kinoforum.org.br/

Os textos que escrevi no ano passado também podem ser encontrados nesse endereço.

Recomendo a todos que acompanhem a programação do festival, especialmente o programa Pensar e Fazer Cinema, que tem como intuito trazer os filmes de diretores que também são críticos de cinema ou estão ligados à reflexão sobre o processo cinematográfico.

Destaque para o filme “De Volta ao Quarto 666″, de Gustavo Spolidoro, conferido na abertura do festival. Win Wenders, diretor do apocalíptico “Quarto 666″,  26 anos depois responde a mesma pergunta feita aos diversos cineastas de seu filme “qual é o futuro do cinema?”.

Vale a pena conferir o colóquio “Escritas do Cinema” que vai contar com a presença de Jacques Kermabon (editor-chefe da Bref Magazine), Bernard Payen (cooredenador de curtas da Semana da Crítica de Cannes), Eduardo Valente (crítico da Cinética e diretor de filmes) e Kleber Mendonça Filho (também diretor e crítico de cinema). O colóquio vai acontecer dia 26/08, às 14 horas na Cinemateca. Imperdível.

O pai do Cinema Novo

Nelson Pereira dos Santos

Nelson Pereira dos Santos

Na edição desse ano do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo tive o privilégio de assistir uma aula-magna de Nelson Pereira dos Santos.

O cineasta mestre, considerado pai do cinema novo, fez uma intervenção muito lúcida a respeito da sua obra e do cinema que se pratica hoje no país. Ao relatar as formas de obtenção de financiamento da maioria dos seus filmes, pude constatar (apesar de algumas críticas plausíveis) a importância da EMBRAFILME no financiamento e distribuição dos filmes brasileiros. Nelson relatou aquilo que já está escrito na história, mas que não é do conhecimento de muitos, principalmente dos que fazem cinema hoje em dia no Brasil. Em seu período mais fecundo, a EMBRAFILME possibilitou que o cinema brasileiro tivesse uma ocupação de 30% do mercado, atingindo altas bilheterias e financiando uma diversidade grande de filmes.

Quando Nelson relata as dificuldades de obtenção de recursos quando filmou seus primeiros filmes, percebemos que mesmo com todos os problemas decorrentes da má administração da EMBRAFILME (em certos períodos) e da não implementação do projeto original (que previa não só a distribuição, mas também a exibição e o controle da importação de filmes), o cinema brasileiro teve um salto de produção, de público e de distribuição antes nunca conseguido.

Esse debate merece ser retomado para repensarmos o atual modelo de produção de filmes. Alguns arautos dos “direitos do público” esbravejam que gasta-se muito com o cinema brasileiro e que não existe público que justifique esse gasto. Como se o problema fosse unicamente dos filmes que foram produzidos, como se um filme pudesse por si só levar multidões às salas de cinema.

Os arautos dos “direitos do público” fogem do debate e se escondem por trás de um discurso fácil para defenderem aqueles que são a principal causa do cinema brasileiro não obter bons resultados de bilheterias: o mercado exibidor predominantemente de empresas estrangeiras e a distribuição de filmes dominada por empresas estrangeiras.

Paulo Emílio Salles Gomes matou a questão a pau, décadas atrás. A pergunta que devemos fazer é: até quando alguns cineastas vão justificar no público a má qualidade de seus filmes e seu desejo de enriquecimento a base do financiamento público?

Sobre Nelson, ainda falta dizer que foi muito enriquecedor poder assistir os relatos desse grande cineasta a quem devemos importantes obras  do cinema latino-americano. Fiquei curioso para entender por que durante as perguntas do público, apareceram muitos estudantes de história e poucos estudantes de cinema. Nelson já faz parte da história, não só do cinema, mas da história do nosso país. Agora a falta de estudantes de cinema na aula-magna me preocupa (pelo menos durante as perguntas), não só por ser Nelson um exemplo a ser seguido, mas também por certo desinteresse que possa existir em relação ao cinema novo e seus cineastas. O reflexo disso pode ser visto nas telas.

Retorno

Voltarei a postar textos por aqui.

Deixei o blog de lado por um tempo por causa da elaboração dos meus projetos de TCC e de iniciação científica.

Quando criei este blog não tive a intenção de manter uma regularidade de postagens, mas pretendo retomá-lo agora.

Tentarei relatar os passos das duas pesquisas que estou conduzindo simultaneamente.  A iniciação científica, que trata das influências do Cinema Novo no cinema brasileiro contemporâneo, e o projeto do TCC, que trata da experimentação da linguagem cinematográfica no curta-metragem brasileiro.

No primeiro caso, irei analisar 3 filmes brasileiros contemporâneos (“Cidade de Deus’, “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “Baixio das Bestas”) e tentarei identificar possíveis influências que o Cinema Novo tenha exercido nestes filmes. Para isso tenho como base o pensamento da pesquisadora Ivana Bentes e a polêmica envolvendo o termo “cosmética da fome”.

No segundo caso, analiso cerca de 11 curtas-metragens brasileiros partindo do conceito de “dupla hélice” proposto por Raymond Bellour. Vou analisar a linguagem cinematográfica estabelecendo como base filmes que tentam romper com a decupagem clássica e criam formas de representação que sejam “não-análogas” com a realidade.

Quando voam as cegonhas

Soy Cuba, foi através desse filme (assistido ano passado, graças ao Making Off) que conheci o trabalho da dupla Mikhail Kalatozov (direção) e Sergei Urusevsky (fotografia). O filme feito na ilha é um capítulo a parte e será objeto de uma análise num momento posterior.

O motivo desse post é falar sobre “Quando voam as cegonhas”, filme da dupla Kalatozov/Urusevsky, realizado em 1957 e ganhador da palma de ouro em 1958.

Mais um filme que tem como cenário a segunda grande guerra, mostrando as dificuldades daquele período sobre a ótica socialista. Para resumir, dois jovens amantes são separados pela guerra, diante da falta de comunicação (o noivo foi para o front), a noiva se casa com o primo do soldado. Apesar disso, ela nunca perde a esperança no retorno de seu amado.

Até aí, tudo bem, nada muito diferente do que estamos acostumados a ver na televisão. Algumas diferenças fundamentais transformam essa estória (que poderia figurar em qualquer folhetim) em uma obra de intensa expressão e profundidade.

Separei dois trechos que encontrei na internet que ilustram algumas das cenas que impressionam, pela inovação para a época, pelo rigor da composição e pelo impressionante ritmo que, de certa maneira, alterna com o ritmo geral do filme. São momentos de “explosão”, em que o conflito interno dos personagens ganha expressão plástica.

O primeiro momento é quando Boris (o noivo que foi para o front) é alvejado, enquanto salvava outro soldado que fazia, junto com ele, o reconhecimento do terreno.

Um delírio, uma visão do sonho que almejava realizar quando voltasse da guerra.

A segunda cena acontece quando o sentimento de culpa de Veronika, por ter casado com o primo de Boris (e não ter esperado a volta do noivo), se consome em desespero. Veronika perdeu a família num bombardeio, quando passa a morar com a família de Boris (este já está na guerra), cede às insistentes investidas do primo de Boris.

Esse sentimento de culpa permeia todo o filme, Veronika nunca perde as esperanças do retorno de Boris, e quando ouve um sermão sobre as mulheres que não esperam seus noivos voltarem da guerra, explode em desespero.

A cena é magnífica, a aceleração dos planos em que Veronika corre chega a um estágio em que só vemos riscos frenéticos pularem de um lado a outro na tela. Como se a personagem, consumida pelo seu desespero, de repente se jogasse embaixo do trem que passa ao seu lado.

A inventividade da dupla Kalatozov/Urusevsky impressiona pela composição dos planos. A fotografia de Urusevsky (que é um elemento de forte destaque em Soy Cuba) é composta de fortes contrastes entre os tons de branco e preto, até mesmo nos closes dos personagens (como o close de Veronika que aparece nessa sequência).

O rigor na escolha dos enquadramentos, a câmera na mão (influência que será de grande valia para os cubanos) e os diversos plano-sequência impressionam pelo efeito que geram sobre a trama. Escolhas certas.

Kalatozov e Urusevsky não obtiveram o mesmo sucesso em Soy Cuba, mas isso será objeto de outra análise.

Cinema Novo, de Novo.

Cinema Novo, de Novo – de Renato Batata

e Cristiano Feitosa

Atualmente, é de conhecimento de muitas pessoas a discussão levantada por Ivana Bentes sobre o filme “Cidade de Deus” e sua relação com o Cinema Novo. O termo, cunhado por ela, “cosmética da fome” já indica de início o tom do debate em torno dessa questão.

Glauber Rocha escreveu o manifesto “Estética da Fome” e nele assentou diretrizes que foram, de uma certa maneira, projetadas nas telas dos filmes do Cinema Novo. A defesa de um cinema autêntico, comprometido com a elevação da consciência popular, com a cultura brasileira em detrimento do cinema industrial que aqui (não somente) se moldava a partir do modelo norte-americano.

A influência norte-americana no mercado cinematográfico brasileiro é antiga, Paulo Emílio Salles Gomes esmiuçou essa questão no livro “Cinema: trajetória no subdesenvolvimento”. Nele, Paulo Emílio demonstra o ciclo que o cinema brasileiro vive desde seu “nascimento”, um ciclo que alterna breves períodos de florescimento e produção independente e longos ciclos de crise devido à colonização cultural e econômica imposta através dos filmes norte-americanos.

Dito isso, chego à questão que trago com filme-ensaio postado. Ivana Bentes afirmou sobre Cidade de Deus e os filmes que seguem a atual tendência ao espetáculo da violência:

“Essa proposta que produziu clássicos como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas, Rio 40 Graus, Os Fuzis, vem sendo deslocada pela incorporação dos temas locais (tráfico, favelas, sertão) a uma estética transnacional,  a linguagem pós-MTV, o novo-realismo que tem como base altas descargas de adrenalina, reações por segundo criadas pela montagem, imersão total nas imagens. Ou seja, as mesmas bases do prazer e da eficácia do filme norte-americano de ação onde a violência e seus estímulos sensoriais são quase da ordem do alucinatório, um gozo imperativo e soberano em ver, infligir e sofrer a violência.”

A partir disso, tentei mostrar o aspecto espetacular de “Cidade de Deus” recortando apenas as cenas de tiros e violência. Feitos os cortes e ajustes necessários, alternei cenas de filmes clássicos do Cinema Novo a fim de propor um debate sobre como é a representação da realidade nos diferentes períodos.

O resultado pode ser conferido acima.

Refrão – diferença e repetição.

Refrão, de Krzysztof Kieślowski.

Krzysztof Kieślowski é um diretor com trajetória peculiar. Seus primeiros curtas já continham o olhar que o mestre registrou na sua famosa trilogia das cores. Kieślowski fez diversos documentários, e só mais tarde retornou à ficção. O interessante dessa trajetória é que podemos perceber a sua marca nos documentários, assim como nos filmes de ficção. Ele nunca construiu seus documentários com um olhar objetivo, como se fossem o olho da verdade. Pelo contrário, apesar de sua câmera “silenciosa”, Kieślowski parece defender uma posição muito forte em cada filme, quase como uma tese. Arrisco-me a dizer que sua forma de construir filmes se aproxima dos chamados filmes-ensaio (sem a apropriação material típica desses filmes).

É o caso de “Refrão” (Refren, no original). Muitos tendem a minimizar seus filmes a aspectos do regime socialista da Polônia. Mais que um crítico da burocracia, Kieślowski aponta uma discussão maior. O curta começa com um close de um documento de identidade, a foto colada a ele está sendo arrancada. O cemitério e em seguida a repartição responsável pela administração dos cemitérios daquele bairro ou distrito. Num ambiente escuro, vemos funcionários atendendo pessoas que tiverem parentes falecidos. Só vemos os funcionários na penumbra. Kieślowski alterna essas imagens, como se não quisesse cortá-las, num movimento repetido em frente a uma janela em que vemos a rua e toda a movimentação da cidade. Vida e morte, temas que sempre permeiam a obra do diretor polonês.

A montagem do filme é construída de forma cíclica. Kieślowski alterna a repartição funerária com a vida da cidade. O tempo cíclico tem relação com a diferença e a repetição. Como uma música que possui intervalos diferentes entre um refrão e outro. Diferença e repetição. Vida e morte. O interessante é a inversão praticada por Kieślowski. Na segunda seqüência do filme temos o cemitério, um mar de lápides invade a tela. Kieślowski relaciona essa imagem com a seqüência final, onde vemos alinhados vários berços com bebês. Na parte frontal dos berços seus respectivos números, lápides, crianças que já nascem com um número e que terão desaparecido oficialmente quando seus documentos de identidade forem destruídos.

Nuvem deste blog

Crítica Curta

A partir de sexta ( dia 22/08 ) vou postar críticas dos curtas que integram a programação do 19º Festival Internacional de Curtas de São Paulo.  É uma oficina do próprio festival, que se chama Crítica Curta. Participam universitários de cursos de audiovisual e jornalismo. A idéia é estabelecer uma reflexão sobre os filmes durante o festival.

Eu participei dessa oficina no ano passado e os textos que produzi foram publicados num tablóide. Esse ano, participo pela segunda vez e as críticas serão publicadas no blog do Crítica Curta.

Quem acompanhar o Festival vai poder ler críticas minhas e de outros universitários sobre os filmes que compõe o Panorama Brasil, o Panorama Paulista, a mostra Cinema em Curso e a Mostra Latina. Considero essa oficina uma importante iniciativa do Festival. A crítica cinematográfica é base para reflexão sobre a produção e os rumos que o nosso cinema pode tomar. O que observamos hoje em dia (nos meios impressos principalmente) é uma crítica cada vez menos comprometida com a arte cinematográfica e interessada apenas em servir de propaganda para filmes comerciais. Investir na reflexão cinematográfica é investir em cinema de qualidade, pois além de formar Críticos (com C maiúsculo) esse investimento também forma cineastas. Que o diga toda a geração de cineastas oriunda da reflexão e crítica cinematográfica.

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